O PRIMEIRO CRIME DE 1968


A casa pobre e pequena rodeada por um quintal de terra amarelada, com banheiro do lado de fora, fechado por uma meia porta que cobria a metade do portal, deixando à amostra os pés e a cabeça de quem estivesse de pé lá dentro,  à frente um tanque de lavar roupas sem água encanada e próximo um balde de folha de flandres e bacia de alumínio. 

O marido entrava e saía da casa para o quintal resmungando, reclamando. Não queria que a mulher saísse. Mas como deixar de ir à festa na casa dos parentes, um reveillon onde as iguarias fartas e variadas duravam ate o Dia de Reis?
Na casa pobre a comida era escassa, o marido desempregado vivia de biscates como pintor de paredes e outros pequenos serviços  que quase nunca fazia. Não era chegado ao trabalho e talvez por isso apesar do tempo de "amigados", a família não o via com bons olhos. Aquela rejeição velada, onde o próprio rejeitado se incumbe de afastar-se.

Naquela família ninguém aceitava um homem que levara a mulher para uma casa carente de mobília e sem nenhum recurso, plantava-lhe um filho a cada ano sem ao menos uma promessa de uma certidão de casamento. Já era muito colaborar a cada mês com alguma coisinha para que as crianças não passassem fome, promover constantes  faxinas nos guarda-vestidos e nas gavetas dos filhos e mandar para  aquelas crianças a fim de evitar que se tornassem maltrapilhos. Fazer o quê? O que não tinha remédio, remediado estava, só restava suspirar.

Ele sabendo ou imaginado que não seria bem-vindo à festa decidiu não ir e dessa vez ninguém iria. Pra que? Para que ficassem falando mal dele, enchendo a cabeça da sua mulher? Colocando esperanças esdrúxulas e recalques  em seus filhos vendo seus primos ganhando presentes que eles não poderiam ter?
- Não ia e estava acabado!
- Não vai!
- Vou, sim! Vou! Vou e vou!

Depois de arrumar as crianças, ela achou um vestido que ganhou da madrasta e nem se percebia que era usado. Vestido estampado, uma gracinha. Separou calcinha e sutiã, pendurou tudo na porta do banheiro e foi para o tanque encher com água o pesado balde de folha de flandres.
- Você não vai!
- Por que não?
- Porque eu não quero!
Ela ria como se tivesse vontade chegando a rascunhar uma gargalhada
- Hahahah E quem vai me impedir? Você? Pare com isso! É a minha família, todos estarão lá e as crianças vão poder comer e brincar um pouco
- Não! Nem eles, nem você! Ninguém vai!

Enquanto isso, outra casa no mesmo bairro, nem tão distante,  as pessoas chegavam à festa animada ao som de novos e antigos LPs e toda aquele vozerio das famílias imensas e completas que falam alto e se reúnem em datas festivas. Na mesa, todo o tipo de comida e carnes, frutas e frutos, bolos, empadas, pastéis, pudim, manjá, frios, vinho e cerveja. Ao centro uma taça com vinho, uma taça com água, uns pães ou quem sabe uma broa de milho - refeição espiritual em agradecimento aos deuses e com o desejo de que a fartura jamais falhasse e a festa nunca desandasse.

A  hora avançou e eles não chegavam. Ninguém se preocupava, eram um trecho da família do qual ninguém dava muita falta. Eram instáveis não apareciam muito. Era ela filha do dono da casa, fruto de um relacionamento de anos com uma mulher que lhe deu duas filhas mas com a qual ele jamais casou, preferindo casar com outra, uma mocinha mais jovem, virgem, tola e crente nos hábitos da época de que era casando que se conseguia casa e vida. 

Contava-se à boca pequena que a amante assistira ao casamento na igreja. Sabia-se que logo após as núpcias ela levara as duas filhas pré-adolescentes e entregara aos cuidados do casal. A jovem esposa tinha um pouco menos que o dobro da idade das mocinhas e sem outra alternativa, aceitou criá-las como filhas, o que tria feito, se elas rebeldes, contrariadas com as normas rígidas não criassem estratégias para reiteradas fugas. Assim, cada uma com uma boa desculpa, quase sempre a de um emprego em casa de família para dormir e com folga quinzenal, arranjava seu par e ia viver amasiada às escondidas. Quando a história era descoberta, lá ia a jovem madrasta buscá-las e trazia para casa quase sempre em condições lastimáveis. Quando o romance dava certo, não tinha jeito,  era deixar por isso mesmo e a paz familiar era restabelecida com a chegada de um novo bebê.

A madrasta sempre dava um jeito de arrumar alguma coisa ao saber que a "barra estava pesada". Não por eles, o casal, mas pelas crianças que não tinham culpa de ter pais tão inconsequentes.

Na virada do ano de 1968, na casa que detinha o título de festa de fim de ano mais animada da região, altas horas, chega um carro, a "joaninha", o fusca preto e branco da polícia civil e o que se sabe foi contado pelas crianças logo no dia seguinte.

- "Ele não queria deixar minha mãe ir pra festa. Brigaram muito. Ele pegou o vestido dela que estava dependurado na porta do banheiro, pisou em cima e fez xixi nele. Riu e disse bem assim":
- "Agora eu quero ver como você vai".
- "Ela disse que ia sem roupa. Aí a mamãe pegou o balde pra levar pro banheiro. Ele segurou ela e bateu. Ela caiu. Ele chutou forte, muito forte. Aí, ele pegou o balde, jogou a água e bateu nela com o balde. Bateu muito. Bateu até ela parar de gritar. Meu irmãozinho nasceu, Saiu assim de dentro da roupa da mamãe".

A polícia não ouviu isso. Naquele tempo criança não testemunhava. As crianças faziam essa narrativa pelo menos uma vez por sema. De tanto que perguntavam, devem ter acreditado que as pessoas gostavam de ouvir essa história. Isso não foi relevante para a polícia. O estado lastimável do corpo da vítima também não foi relevante.

A menina mais velha ficou com uns parentes, a mais novinha e o menino passaram a viver na casa que tinha a festa de fim de ano mais animada do bairro. Não por muito tempo, tempo suficiente para que seu pai deixasse a cadeia onde não chegou a ficar um ano. Logo que saiu da prisão, sem culpa, dor ou arrependimento aparentes, foi buscar as crianças que se foram. O menino com uniforme e papéis da matrícula na melhor escola pública, ali logo pertinho que ele jamais voltaria a frequentar. A menina mais gordinha, penteadinha mais sorridente, ambos com uma considerável bagagem de roupas novas e brinquedos.

Anos depois soube-se que o menino estava interno da Funabem, onde aprendeu eletrônica e tornou-se técnico de TV e rádio, daqueles que ainda usavam válvulas. Parece que ele preferiu viver numa instituição de recuperação. Da menina jamais se teve notícias. Eram filhos dele, não havia naquele tempo como interferir ou impedir. Toda a tentativa de noticias das crianças era recebida com animosidade.

Um dia, muitos anos depois o menino, já um homem feito, fez uma visita àquela família que quase tinha sido sua. Tempos depois morreu por problemas derivados do alcoolismo.
Na casa da festa mais animada do bairro, numa arca bem guardada por conter documentos importantes, um recorte amarelado de jornal com uma foto e a manchete: "Marido mata a mulher no primeiro Crime de 1968".
Em 2018,  completou 50 anos


Comentários