HERÓI

Seu pai nunca foi um herói. Ainda que tenha sido um soldado do fogo, ainda que algum dia nesse ofício tenha salvo alguma vida, o que ela gostava de imaginar na infância, mas no fundo sabia não era verdade.
Como o Papai Noel, seu pai era algo que levava a fama por algo de bom que outros faziam. Ela sabia que era assim.

Tinha uma vaga lembrança de ter-se assustado com ele um dia quando era bem menina, quase criança de colo ainda e, chorado muito por esse susto que ela não sabe explicar. Só tornou a vê-lo muitos anos depois. Seus encontros eram raros, aconteciam em circunstâncias festivas ou dramáticas, inclusive teve um totalmente circunstancial. 


Ele gostava de falar bem de si mesmo, mas não praticava nenhum ato para que suas falas fossem verdadeiras. No entanto, nunca mereceu o  seu ódio  como tinha na irmã mais nova, nem despertava o seu amor, como na irmã mais velha e estava longe de ser indiferente como deveria ser o sentimento de uma filha para com um pai indiferente como ele era.

Um dia encontraram-se no ônibus que ele dirigia nas horas de folga para garantir um trocado a mais. 

Foi por acaso. 
Ele marcou um encontro para mais tarde quando terminaria o turno. Assim se encontraram e pode-se  dizer que pela primeira vez.
Ela tinha reclamações e reivindicações não suas mas dos irmãos que viviam amontoados num porão úmido e mal ajeitado cujo aluguel ele deixara de pagar havia uns meses. As crianças não tinham uniforme nem material escolar, a mãe deles ganhava pouco e o dinheiro não era suficiente para todas as necessidades dos 3 filhos. 

Sim, ela tinha 3 irmãos, que conhecia pouco, apenas de visitas raras e algumas poucas ocasiões festivas. Naquele dia de encontro marcado pela coincidência, ele a levou para conhecer a casa que construía e a esposa com a qual vivia. Nesse dia, Cabrochinha lembra que tinha 14 anos de idade.

Contou-lhe ele, que nada tinha a ver com aquela família, sim a que poderia ser dela,  pois não era "um homem de retroceder".
Contou-lhe que sua mãe o traiu, com um batalhão do Exército, com um time de futebol inteiro. 
Aos 14 anos, Cabrochinha não sabia o que podia ser traição, não tinha noção do que era "traição com um time de futebol inteiro".  Aquela era a primeira vez que tomava um ônibus sozinha e ele tinha um estranho modo de falar, faltando palavras, faltando emoções.  O tema era tão inusitado que ela não conseguia formular perguntas tantas eram as suas dúvidas. Guardou as informações que não compreendeu, pois o importante era esconder da sua família adotiva aquele encontro e criar uma história para justificar tanto atraso no retorno à casa. Ela não era de mentir, mas aquele momento era o  mais importante.

Voltaram a se encontrar anos depois. Ela já no seu novo apartamento antigo, alugado. Ele ainda vigoroso, mantinha o jeito evasivo de falar. Pediu-lhe as chaves para fazer alguns consertos, arrumar aquelas coisas que se deterioram com o tempo nas casas antigas. Pela primeira vez ele demonstrava interesse por ela, pela primeira vez ele faria alguma coisa por ela e se era a posse das chaves que facilitaria o processo,  não tinha como negar. 

Tinha notícias, mas nenhum vestígio de que ele ia, porém nunca encontrou nada consertado, as torneiras seguiam pingando, manchando a pia, formando manchas ferrugentas no esmalte alvo; a lâmpada da sala seguia piscando, recusando-se a acender quando se acionava o interruptor e a do quartinho sequer acendia. Até que um dia, uma vizinha comentou ter conhecido sua tia, muito bonita e loura. Nunca soubera que ele neto de africanos escravizados tivesse uma irmã loira. Não quis abrir essa particularidade  com a vizinha tão observadora que a cada semana conhecia uma sua tia diferente. E depois outra tia e depois mais uma, sempre mulheres de pele clara irmãs do seu pai tão preto. 

Quando já estava acostumada com tanta gente branca e desconhecida na família, surge o comentário sobre ruídos eróticos ouvidos nas tardes silenciosas daquele bairro tranquilo e bucólico que de tão azul que era o céu,  tinha nome de Anil. 

-  Olha, gritos quentes, pornográficos! Uma putaria! Sacanagem da boa!

Cabrochinha precisou pedir-lhe as chaves de volta ainda que as torneiras continuassem a gotejar e as lâmpadas só durassem no máximo 15 dias. 


O próximo encontro, foi mais uma coincidência. Ela já havia se mudado, estava gora numa casa de esquina e transformara o quintal num barzinho, estratégia de sobrevivência. Nesse dia teve um pagode e o movimento foi infernal. Precisaram comprar gelo e ele solícito fez essa gentileza que a deixou comovida. 

Ele pegou o dinheiro e pagou  o espanhol do gelo com um cheque num valor maio, guardou seu "troco". Ela não saberia de nada se o cheque não tivesse voltado e Paco, o espanhol do gelo não tivesse ido lhe cobrar. Nem por isso brigaram, tinha sido uma ajuda e tanto.

Certa vez tiveram uma briga bem feia envolvendo uma das amantes dele e assim se passaram mais algumas décadas sem se encontrarem. Até que ela decidiu fazer as pazes e fez. As pazes ficaram feitas e abandonadas sem que se procurassem outra vez o que só aconteceu num velório. 


Tantas coisas ruins já tinham passado, que ela pensou que agora poderia ser diferente. Com a vida arruinada por um desemprego e um descasamento, procurou-o. Passou a tarde tomando cerveja, ouvindo-lhe contar sua história de vida sofrida e seu orgulho por ter  superado. Sentia-se um vencedor e não tinha pudores de assim se declarar diante daquela filha que o procurava pedindo ajuda. O vencedor morou com uma mulher por décadas, fez 4 filhos que nunca ajudou a criar, nunca os sustentou. 
O vencedor pagou a conta da padaria à frente da sua casa e como ajuda que ela viera buscar deu-lhe  o troco. Precisos R$4, 85.

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