Menina ouvia o pai dizer que tudo na vida dependia de se ter um objetivo. Com orgulho ele contava que teve uma infância miserável, sofreu com racismo e outros preconceitos sociais. Fora praticamente criado na rua, trabalhara em vários subempregos. Tinha sido especialista em colocação de pedras portuguesas nas calçadas, de quatro o dia inteiro, vendo pés e com a cabeça ao sol.
A cachaça subia, a conversava esquentava, o dia perdia as cores acinzentando-se escuramente como as sombras da amendoeira que acariciavam o chão da esquina onde ficava aquela padaria.
Até que ele conseguiu um emprego público que só dependeu de fazer uma meia leitura e responder à uma meia-entrevista. Tinha vencido! Era hoje homem satisfeito, funcionário aposentado feliz proprietário da sua casa com quartos, varanda, área e uma garagem abrigando um carro antigo
No seu discurso, parecia haver uma crítica por Menina nunca ter tido objetivo na vida, Ele esquecia do bebê que deixou para trás com a mulher - acusando-a de adultério, que teve de ir buscar largando-o na casa da uma das suas sua irmãs e depois que pegou de volta quando o fez as pazes que não duraram muito tempo e assim, finalmente entregou o bebezinho para um casal conhecido criar ou enterrar, já que Menina quando criança, mais feia que mudança de pobre tinha uma doença grave, nenhuma certidão de nascimento e chorava dia e noite impedindo a mãe de trabalhar como doméstica em casa de família.
Ele esquecia ou ele não sabia? Que se desfez algumas vezes daquela criança feito gato fêmea, que se leva pra longe rapidamente antes que entre no cio e ao retornar à casa o gato já está lá. Uma sujeira que se varre para debaixo do tapete
Deixou lá em qualquer braço sem abraço o pacote moribundo. Comprometeu-se com a família que jamais iria interferir na educação do pequeno trambolho, coisa que fez questão de cumprir e jamais esquecer.
E eis que agora estavam ali, ele e Menina, degustando torresmo com cachaça no retorno de um enterro, num gurufim sem música e essas lembranças que não pertenciam ao dono do funeral.
Menina, diante daquele homem vencedor, que se dava por satisfeito com a vida que viveu, com as inúmeras mulheres que comeu e o patrimônio que juntou. Ela foi o estorvo insistente que insistiu em não morrer, apenas uma etapa de um feito sem projeto que não deu certo e que felizmente nenhuma responsabilidade ele tinha sobre isso.
Atento e disposto a ajudar à enjeitda crescida e fracassada, ele exigia que ela respondesse, qual era o seu objetivo na vida, afinal.
Ah, se ela tivesse tido um objetivo na vida que não fosse ter conhecido aquele pai!
Ah, se ela tivesse tido um objetivo na vida que não fosse ter conhecido aquele pai!

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