QUEM VENCE NA VIDA SOZINHO? ( A CASA DA VILA - parte 2 )

Foi na casa da vila que Cabrochinha entendeu tantos conceitos e pré-conceitos e preconceitos. Às vezes se punha a pensar que muito do preconceito existia nos outros de fora porque tinham raízes dentro da própria vítima do dito cujo preconceito. Preferia não falar sobre isso, pois certamente pareceria preconceituosa.

Outras vezes Cabrochinha analisava que muito do pré-conceito existia pelas atitudes das pessoas que sofriam com eles, tão diferentes das atitudes daquelas que o conceituavam pejorativamente. Sim, ela compreendia que essas pessoas sofriam pelas faltas de oportunidade para estudar, trabalhar, crescer e formarem-se ou tornarem-se socialmente educadas.
Isso era verdadeiro e sincero na nossa Cabrochinha, tanto assim, que ela sempre se posicionou a favor dos fracos e oprimidos, contra as elites e o endinheiramento - historicamente - aleatório e quase sempre imerecido e/ou ilícito.
Cabrochinha quando foi morar lá já sabia que o discurso do “pobrezinho” nascido e criado na adversidade que venceu de alguma forma, seja escrevendo um livro, entrando numa faculdade, inventando um jeito de romper a barreira da falta de recursos, era sempre uma história contada pela metade por pessoas ignorantemente inocentes ou que apenas apreciam uma boa história e seguem cagando e andando para toda a base de uma história de vida, partindo do princípio que são as mesmas pessoas que apregoam que “ninguém é feliz sozinho”. Quase sempre essas pessoas eram as mesmas que contam para nós as histórias da Carochinha (não, não há aqui, nenhum parentesco) onde sempre há uma fada madrinha, um grupo de anões, um bom dragão, um João Grilo, um Mestre Gepetto, um príncipe ou qualquer outra personagem que ajude os sofredores a chegarem naquela parte do “felizes para sempre”. Resumo? Ninguém vence sozinho sem, mas a ajuda quase sempre é ignorada nas histórias de sucesso dos que comeramo pão que o diabo amassou.
Por que negar isso na vida real?
Xuxa teve Pelé e Marlene Matos, Ronaldinho, o dentuço teve seu irmão e empresário Assis, Roberto Carlos teve Carlos Imperial. Só Tim Maia parece que não teve ninguém. Resumindo, na vida, é preciso algumas coisas além de talento, força-de-vontade, muito ou algum trabalho e sorte travestida de oportunidades casuais, pois é fato que muitos já deram de cara com a Dona Sorte e por pura falta de orientação não a reconheceram ou não a aproveitaram e continuam por aí se matando de trabalhar.
Hipocrisia era o nome que Cabrochinha dava ao julgamento que as elites imputavam aos pobres, os políticos ao populacho, os senhores aos escravos, os reis aos súditos. Sempre eles predestinados e superiores e aqueles, preguiçosos, indolentes, carentes de inteligência. O que Cabrochinha me conta que aprendeu ali naquela casinha de vila é que a recíproca poderia ser verdadeira. Há ricos sofridos e pobres filhos-da-puta.

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